A História da Mais Alentejo

texto António Sancho | Publicado na revista edição Jan-Fev 2021

O presente texto, escrito a propósito dos 20 anos de vida da Mais Alentejo, atingidos em 2020, percorre e conta a nossa história. Além das duas décadas de existência da revista, abarca igualmente o período que antecedeu a criação deste projecto jornalístico, bem como o meu próprio percurso profissional de quase meio século, desde há quase 40 anos possuidor do título de Carteira Profissional de Jornalista. Afigura-se-me impossível abordar o percurso da Mais Alentejo separando-o dos caminhos que percorri, em primeiro lugar como jornalista e, também, dos tempos da minha infância e adolescência, onde o Alentejo esteve sempre presente pela circunstância, embora tendo nascido em Lisboa, de descender de famílias, paterna e materna, com raízes profundamente alentejanas. Dizendo de outra forma, em 1994, criei e inventei o projecto Mais Alentejo e a revista com o mesmo nome, no ano 2000, pela infinita paixão que tenho pelo jornalismo, mas igualmente pelo amor imenso, a perder de vista como as planícies, que tenho ao Alentejo, sendo isso que vou procurar retratar nas páginas seguintes

 

COM O QUE TEMOS PARA NOS DAR

Quando, há mais de 50 anos, então muito jovem, me sentava nos bancos de pedra, que ainda lá estão, exactamente como as mesas igualmente em pedra, do pequeno retiro de viagem existente do lado direito da entrada de Alvito, acompanhado pelos meus pais e pelo meu único irmão, o João, não imaginava, nem podia, que naquele local haveria de passar centenas de vezes, muitos anos depois e, ainda menos, que um dia iria residir naquela histórica e simpática vila alentejana.

A passagem por Alvito era inevitável quando o nosso destino, com o meu pai ao volante do seu “amado” Ford, numa condução lenta, lentíssima, que exasperava o meu espírito de aventura e descoberta, era Cuba, terra da minha família paterna, tal e qual como passar (e parar) na praça central de Reguengos de Monsaraz consistia quase um ritual a caminho de Sobral da Adiça, freguesia do concelho de Moura, onde a imensidão da planície dos cheiros do campo convidava ao sonho.

A ligação ao Alentejo, desde miúdo, foi uma constante, com deslocações anuais durante o período das “férias grandes”, sempre em Julho ou Agosto – sendo talvez por isso que, ao contrário de muita gente, adore o calor do Verão alentejano –, a Cuba ou a Sobral da Adiça (aqui, devido ao facto de ali morar uma tia do lado materno, a querida Inha), no Baixo Alentejo, bem como igualmente a Mora, no distrito de Évora, vila de naturalidade de minha mãe.

O apelo chamativo, uma espécie de atracção inexplicável, que o Alentejo, ao longo da minha vida, quiçá uma marca tatuada na alma, exerceu sobre mim, além das raízes familiares, e das inesquecíveis memórias do meu pai José Francisco e da minha mãe Isabel Maria, ambos falecidos em 1984, muitas vezes faço essa pergunta, deverá ter sido determinante na decisão que tomei, em finais de 1994, não somente de viver em terras alentejanas como em fundar um órgão de imprensa intitulado Mais Alentejo.

Muitos anos antes, no Verão de 1973, então como 18 aninhos, na sequência do meu prematuro, assumo, primeiro casamento (sim, foram vários, os casamentos, mas, esclareço, não tantos como o genial Vinícius de Moraes, saravá!), sabendo que, por razões do foro pessoal, teria de “trocar” Lisboa por Luanda, em Angola, com viagem marcada para finais de Setembro, a minha despedida de Portugal – não sabia por quantos anos – foi feita por terras alentejanas, visitando locais, familiares e amigos. Hoje, ao lembrar-me disso, não posso deixar de sorrir, o Alentejo, sempre o Alentejo, no meu caminho, então vá, não havia, não há, nunca haverá, volta a dar.

 

E, DE REPENTE, MAIS ALENTEJO

Em meados de 1994, recebi um telefonema de Manuela Eanes, como é sabido mulher do antigo Presidente da República António Ramalho Eanes, referindo-me que o general tinha recebido o pedido de um amigo de Elvas no sentido de lhe indicar um jornalista que estivesse interessado em dirigir um jornal sedeado naquela cidade alentejana, acrescentando que se tinham lembrado de mim.

Fiquei espantado com o motivo do contacto, que obviamente não esperava, mas, perante a pergunta de Manuela Eanes se haveria interesse da minha parte, embora fosse necessário saber mais pormenores sobre o tema, depois de agradecer a deferência, disse estar disponível para ouvir a proposta, o que fiz, pouco tempo depois, deslocando-me a Elvas, onde também tenho familiares (lado materno).

Em Setembro de 1994 assentei arrais na cidade elvense, a ideia consistia um transformar um incipiente jornal local num semanário para todo o Alentejo – tarefa que não seria fácil atendendo à grandeza geográfica da região alentejana –, a começar em Janeiro do ano seguinte, com a publicação exploratória mensal, até lá, de várias edições de lançamento. Assim foi feito, mas em final de Dezembro o proprietário do jornal, dando o dito por não dito, desistiu do projecto.

Preparava-me para regressar a Lisboa, já perto do Natal de 1994, quando fui chamado a uma reunião com o então presidente do Município de Elvas, Rondão Almeida, que, entretanto, havia conhecido e, por via disso, acompanhado o trabalho realizado no tal projectado jornal, a pretender convencer-me a ficar para fundar uma publicação de qualidade, garantindo-me o apoio publicitário da autarquia.

Abandonei o encontro com o autarca convicto que o melhor seria regressar à minha vida na capital, mas, como um aliciante desafio, a ideia começou a bailar-me no pensamento, invadindo-me gradualmente, pelo que horas depois, após reunir alguns apoios e consultar a pequena equipa que tinha construído no âmbito do “prometido” jornal, onde pontificavam, lembro, Nuno Cordeiro, Bela Calado, Nuno Veiga (hoje fotógrafo reconhecido a nível nacional) ou Miguel Judas (actualmente jornalista da Visão) decidi arriscar, tendo-me de imediato surgido na cabeça o título Mais Alentejo, que, no dia seguinte, tratei de registar na entidade que na altura regulamentava a comunicação social (actual ERC).

Com o confesso objectivo, expresso e sublinhado por mim próprio, de conseguir afirmar-se como um produto jornalístico ímpar, que conseguisse atingir o patamar cimeiro de qualidade a nível do universo de toda a imprensa editada em terras alentejanas, estava criado o jornal Mais Alentejo, cuja primeira edição foi publicada em Fevereiro de 1995.

Mas, foi “Sol de pouca dura”, já que decorridas sensivelmente dois meses – o jornal era semanário e foram editados nove números –, com o dinheiro disponível a acabar e a desesperante ausência dos apoios prometidos, em especial aquele que havia sido garantido por Rondão Almeida, vi-me obrigado a interromper a publicação, ciente, por outro lado, que Elvas não seria a cidade mais propícia para a existência de um jornal que pretendia ser de todo o Alentejo.

A segunda fase do jornal Mais Alentejo surgiu, em Évora, corria o ano de 1997, cidade para onde, entretanto, me havia mudado, na convicção de ser o local mais adequado para a sede de uma publicação, além de pretender primar pela qualidade, que “falasse” para todo o Alentejo, área territorial do país onde cabem, conforme já existiam na altura, 47 concelhos distribuídos pelos distritos de Beja, Évora, Portalegre e Setúbal (Litoral Alentejano).

Pouco depois, atendendo ao protagonismo que o Baixo Alentejo começava a possuir no tecido empresarial, político e social da região – anunciava-se o famoso “triângulo de desenvolvimento”, Alqueva, aeroporto de Beja e porto de Sines, que ia fazer brilhar o Sol por todo o Alentejo –, mercê da “pressão democrática” de diversos actores regionais, achei por bem que a sede do jornal Mais Alentejo pudesse situar-se, digamos, a meio-caminho, entre Évora e Beja, tendo escolhido Alvito, afinal, tratava-se de um regresso aos bancos de pedra das minhas memórias de miúdo.

 

REVISTA BANDEIRA PARA TODA UMA REGIÃO

O jornal Mais Alentejo publicou-se, com a periodicidade quinzenal, até finais de 1999, tendo sido em meados do mesmo ano que começou a germinar na minha cabeça transformá-lo em revista, uma revista que fosse criativa, diferente, inovadora e irreverente, que colocasse a qualidade em primeiro lugar, em suma, uma publicação que viesse preencher um espaço vazio, não apenas no Alentejo – em todo o Alentejo –, como no interior do país e que rompesse com o centralismo de Lisboa.

No final do século XX, o panorama da comunicação social alentejana – de resto, não muito diferente da actualidade – era francamente paupérrimo, limitativo, provinciano, ou seja, constituído por vários jornais basicamente circunscritos à zona onde estão sedeados (o mesmo sucedendo com as estações de rádio), unicamente tratando, e mal, de assuntos e temas relacionados com a sua “pequena paróquia”.

Regra geral, a imprensa regional, incluindo vários títulos com dezenas de anos, estavam (e estão) fechados na “fronteira” dos respectivos concelhos, por exemplo, no distrito de Portalegre e no Litoral Alentejano existem alguns exemplos disso mesmo, enquanto Beja é muito marcada pelo Diário do Alentejo (um jornal pornograficamente propriedade de autarquias, que não é diário, mas sim semanário) e Évora tem a referência Diário do Sul, este, apesar de tudo, um exemplo de coragem e tenacidade do seu líder, Manuel Madeira Piçarra.

Na altura, últimos ais do século passado, havia uma revista no Alentejo, intitulada Imenso Sul, com qualidade, feita por jornalistas, mas que nunca soube – talvez devido à circunstância de possuir uma equipa que não encarava o projecto como algo central e a tempo-inteiro – afirmar-se verdadeiramente, pelo que, com o fim anunciado, ninguém estranhou que desaparecesse de cena.

Um dia, ainda em 1999, em conversa com José Roquette, na Herdade do Esporão, em Reguengos de Monsaraz, aquele empresário disse-me que eu deveria aventurar-me a transformar o jornal numa revista – as suas palavras foram mais ou menos estas – “uma publicação que seja uma bandeira de todo o Alentejo, porque se há região com futuro no nosso país ela é certamente o Alentejo”.

No mesmo ano, quando o século XXI estava a bater à (nossa) porta, andando pela costa alentejana, onde o mar é lindo como nenhum outro em Portugal, quem sabe se inspirado pela alma de um navegador que parte à descoberta, tomei a decisão que me alimentava o pensamento há meses: o jornal iria dar lugar à revista Mais Alentejo, sendo o objectivo primeiro o mesmo de sempre, a saber, editar o melhor produto jornalístico de todo o Alentejo e que nada ficasse a dever às publicações com maior índice de qualidade existentes no país.

No início do ano 2000, embora continuasse a residir na vila de Alvito, desde logo, foi meu entendimento que Beja deveria ser escolhida para sede da revista Mais Alentejo, ponto estratégico por onde se anunciava ir passar o futuro de todo o Alentejo, o denominado “triângulo de desenvolvimento”, especifique-se, o empreendimento de Alqueva, o aeroporto de Beja e o porto de Sines.

A primeira sede da Mais Alentejo, situada na rua Dr. Manuel de Arriaga, no centro histórico de Beja, curiosamente muito perto dos edifícios que albergam o PS e o PCP locais – e não muito longe do emblemático café Luiz da Rocha –, onde se instalou a equipa inicial da revista, precisamente em Março de 2000, serviu fundamentalmente para preparar o lançamento da primeira edição.

A artéria bejense que ostenta o nome do primeiro Presidente da República portuguesa foi, de resto, escolhida para a segunda sede da revista, localizada a escassos 50 metros da primeira, indubitavelmente a casa que considero como a mais importante no percurso da revista devido à circunstância de ter sido ali que a Mais Alentejo soube criar e aprofundar as bases que haveriam de afirmar o projecto em termos definitivos.

Na sequência de um parto nada fácil – dificuldades decorrentes do facto da revista ter nascido, literalmente, sem dinheiro e com o trabalho (árduo) a constituir o único capital existente –, finalmente, ao final da tarde de um dia acalorado de Junho do ano 2000, na belíssima Sala do Capítulo da Pousada de Beja, nasceu a Mais Alentejo, com a apresentação do número um.

Além da equipa inicial da Mais Alentejo – mais adiante, dedicarei palavras da camaradagem, unindo-me num abraço apertado e longo, a todos(as) aqueles(as) que ao longo dos anos fizeram história na nossa casa –, entre os presentes encontrava-se um homem único, a quem me liga uma profunda inquebrantável amizade de muitos anos, chamado Rui Nabeiro, cujas palavras serão sempre poucas para caracterizar, líder da Delta Cafés, grupo empresarial a quem muito devemos pelo apoio e reconhecimento que, desde sempre, tem evidenciado para connosco.

Com uma paginação inovadora e muito imaginativa, marcada por uma irreverência diferenciadora, desde o primeiro número que a Mais Alentejo deixou bem claro ao que vinha: produto jornalístico cosmopolita e moderno, mas sem perder, antes preservar, uma forte característica identificativa do Alentejo, onde coubesse todo o Alentejo dos distritos de Beja, Évora e Portalegre e, ainda, o Litoral Alentejano (distrito Setúbal).

O formato da primeira edição da revista, que se manteve até ao número 29, inclusive, dava-lhe um “toque” de jornal, possivelmente uma influência dos tempos iniciais do projecto, embora em papel couché e totalmente a cores, num figurino que tinha algo de original, a fazer lembrar algumas publicações que construíram história no panorama da imprensa à escala internacional.

Com a publicação da edição 30, que marcou a mudança de formato, a Mais Alentejo iniciou um caminho novo, que, anos mais tarde, haveria de acentuar-se com a fixação no número de páginas (116), que se mantém actualmente, sendo de sublinhar o objectivo, nunca abandonado, antes sempre reforçado, de aprofundar a qualidade jornalística, tanto nos conteúdos como na concepção gráfica e paginação.

Muitas, profundas e variadas foram as alterações e transformações ocorridas ao longo dos 20 anos de vida da Mais Alentejo, a começar pela equipa que me tem acompanhado na produção da revista, passando pelo painel de colaboradores e terminando no produto final apresentado aos leitores, vindo a propósito salientar que, infelizmente, o único factor que teimosamente persiste, quase inalterável, desde o primeiro número até hoje, reside nas (enormes) dificuldades comerciais e financeiras vividas.

Em relação ao que acabo de referir, obviamente, mentiria se dissesse que as dificuldades de hoje são exactamente as mesmas, por exemplo, de há cinco, 10 ou 15 anos, também muito mau sinal seria se uma publicação com o lastro de 20 anos de existência, mantendo permanentemente uma bitola de qualidade cimeira, não conseguisse aligeirar as respectivas dificuldades comerciais e financeiras, muito embora, apesar disso, persistam aqueles que, inexplicavelmente, teimam em manter-se cegos, ignorando o projecto jornalístico que mais tem feito pelo Alentejo nas últimas duas décadas, os mesmos que inexplicavelmente preferem apoiar, conforme sucede desde há algum tempo, um medíocre encarte, que nem sequer tem sede no Alentejo, inserido nas sobras de um jornal nacional.

Já no que respeita àquilo que tem sido a própria evolução da revista (conteúdos editoriais, onde se preserva a liberdade e a pluralidade de opinião, linha gráfica, paginação, etc.), afigura-se inegável que a Mais Alentejo não tem parado de aprofundar a respectiva qualidade, enquanto produto jornalístico de reconhecida excelência, uma tendência que tem sido notória, principalmente, nas mais recentes edições, incluindo uma aposta em melhorar o produto conforme fizemos recentemente com o aumento da gramagem do papel utilizado.

 

PRÉMIOS ALENTEJO IRMÃO GÉMEO

Ligado umbilicalmente ao objectivo de editar a publicação jornalística que soubesse afirmar-se como a melhor, em termos de qualidade, sedeada no Alentejo, desde a primeira hora, sempre esteve na minha cabeça a ideia de produzir, em estreita ligação com a revista, um evento único a nível da imensa região alentejana que distinguisse, premiasse e reconhecesse tudo aquilo que marca o Alentejo.

Foi assim que, em 2002, nasceram os Prémios Alentejo, numa fase inicial uma cerimónia ainda incipiente, algo tímida, mas que, com o passar dos anos – e já lá vão 19 anos consecutivos –, tem vindo, indiscutivelmente, a afirmar-se como o evento anual mais importante de todo o Alentejo, para o que contribuiu decisivamente o facto da exclusividade que foi conferida, entretanto, através do registo nacional no INPI, Instituto Nacional de Propriedade Industrial.

A primeira Gala dos Prémios somente poderia ter decorrido em Beja, cidade sede da revista, tendo ocorrido no auditório do Instituto Português de Juventude, em 2002, com o Alentejo a ser cenário privilegiado nos anos seguinte: Vila Galé Clube de Campo (Beja, 2003), Monte do Sobral (Alcáçovas, Viana do Alentejo, 2004), Quinta da Suratesta (Beja, 2005), Pousada de Beja (2006  e 2007), Convento do Espinheiro (Évora, 2008 e 2009), Casino Tróia Design (Grândola, 2010), Teatro Garcia de Resende (Évora, 2011, 2012 e 2013) e Teatro Pax Julia (Beja, 2014).

Em Janeiro do ano seguinte, na fase inicial de preparação da décima quarta Gala dos Prémios Alentejo, na sequência de análise e (aceso) debate no seio da equipa Mais Alentejo, foi decidido ter chegado o momento de “dar o salto” para a zona da capital, com o objectivo de levar a cerimónia que, como nenhuma outra, afirma e enaltece toda a alma alentejana, a palcos mais mediáticos que fossem, simultaneamente, uma montra para os mais variados sectores de actividade da sociedade alentejana.

E, para levar os Prémios Alentejo para fora da nossa região, não podia haver melhor palco que o histórico e secular Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, onde decorreu a cerimónia referente a 2015, tendo no ano seguinte surgido a possibilidade de realizar a Gala no Salão Preto e Prata do Casino Estoril, emblemático espaço que tem acolhido muitos dos melhores espectáculos realizados em Portugal.

A forma altamente profissional (e simpática) como a nossa equipa foi recebida no Casino Estoril, além do Salão Preto e Prata, pelas características que possui, ser o local ideal para a realização de um evento com o figurino dos Prémios Alentejo, fez com que as cerimónias seguintes (2016, 2017, 2018 e 2019) aí tivessem lugar, enquanto a Gala referente a 2020, que deveria ter acontecido a 20 de Novembro do ano passado, volta ao Alentejo, realizando-se no Hotel Vila Galé Évora.

Uma nota final para sublinhar que nas Galas dos Prémios Alentejo já realizadas foram muitas as centenas de personalidades da sociedade alentejana (e portuguesa), de todos os segmentos de actividade (artes, cultura, património, empresas, turismo, etc.), que passaram pela cerimónia, assim como foram milhares os projectos e os sectores oriundos das mais variadas áreas do Alentejo, sendo de todo impossível, aqui e agora, nomear a totalidade.

Também, em relação aos Prémios Alentejo, uma palavra de sincero agradecimento para os(as) apresentadores(as) das Galas realizadas, designadamente, Ana Lourenço, Ana Patrícia Carvalho, Ana Sofia Cardoso, Carla Ascenção, Carla Matadinho, Fernando Pereira, João Carlos Moleira, Jorge Baptista, José Carlos Malato, Paula Castanho, Raquel Loureiro, Sandra Barata Belo, Sara Pinto, Susana Bento Ramos e Virgílio Castelo, bem como, muito especialmente, para a equipa de produção e realização: Filipa Veloso, Diogo Peres e Samuel Marques.

 

CEIA DOS CARDEAIS

Durante 20 anos múltiplos e variados foram os acontecimentos, bem como os episódios e as estórias que marcaram o percurso da revista, sendo indesmentível que as dificuldades comerciais e financeiras – sabendo-se ser a publicidade o pilar principal de sustentabilidade de um qualquer órgão de comunicação social, sou claro, no Alentejo não há mercado publicitário –, infelizmente constantes, pela minha parte, ao recordar o caminho trilhado, desde 2000 até 2020, prefiro decisivamente o lado positivo, ou seja, salientar todo o trabalho realizado, indubitavelmente meritório.

Afinal, quais foram os momentos mais marcantes? Além do risco inicial – teimar em fazer uma revista sem dinheiro é coisa de loucura, ainda que, acho, de uma loucura clarividente e até saudável –, não posso deixar de mencionar a mudança de formato, a nova linha gráfica, o aumento do número de páginas, a permanente melhoria nos conteúdos, também, no desenho e paginação e, mais recentemente, o aumento da gramagem do papel utilizado, que confere à Mais Alentejo um toque ainda mais acentuado de publicação de colecção.

Naturalmente, o conjunto de colaboradores(as), tanto a nível do corpo redactorial e secretariado, como de cronistas, desde o início, que passaram pela Mais Alentejo, são uma parte essencial e substancial de tudo aquilo que a revista é hoje, não podendo eu, ao aventurar-me a escrever um texto sobre a nossa história, deixar de lembrar os nomes daqueles (alguns já falecidos) a quem muito devo, muito mesmo, facto que jamais esquecerei.

Conforme facilmente entendível, nem todas as pessoas que me acompanharam ao longo dos últimos 20 anos tiveram a mesma influência ou importância na Mais Alentejo (não tendo o defeito da hipocrisia, sublinho que nem todos(as) aqueles(as) que passaram pela revista merecem ser mencionados), pelo que, embora correndo o risco de me esquecer de alguém, vou somente citar os nomes que julgo serem dignos de um sincero agradecimento da minha parte.

 

 

Assim, indo ao baú, nos primeiros anos da revista, recordo Rita Piçarra, Sílvia Alexandrino, Cristina Siquenique, Fátima Nobre, Paulo Bernardino, Maria João George (já falecida), Susa Monteiro, Bruno Ferreira, Vitor Fernandez da Silva e José Lopes Guerreiro, deixando para o final, aplicando a máxima segundo a qual os “últimos são os primeiros”, o meu filho André Sancho, que foi o nosso primeiro designer e paginador, bem como quem considero ter protagonizado um papel fundamental na génese da revista, Filomena Ramos, que me acompanhou até 2008, cujo trabalho se notabilizou também enquanto fotógrafa (assinando com o pseudónimo Maria Cascais).

Um pouco mais tarde, em primeiro lugar, lembro Susana Ferreira, que se fez jornalista profissional na Mais Alentejo, a cuja Redacção pertenceu vários anos, com um talento superior (infelizmente, depois de sair da revista abandonou o jornalismo), tal e qual como recordo, no corpo redactorial, Tiago Salgueiro, Lisa Ferro, Catarina Costa e Palma, Ana Nunes Pedro, Ângela Nobre e Ângela Gonçalves Marques, bem como outros nomes a nível do secretariado ou do marketing e da publicidade, nomeadamente, Ana Mestre, Ana Cabral, Rita Água-Doce, Dora Pôla, Joana Machado, Rita Parrinha, Sandra Jesus, Célia Carvoeiras e Dina Machado.

No que respeita aos colaboradores, além dos já citados José Lopes Guerreiro e Vítor Fernandez da Silva, recordo Ana Bacelar, Nuno Poiares, Luís Mira Coroa, Heloísa Alves, Joaquim Grave, Maria Dulce Guerreiro e João Cortez de Lobão, referindo, igualmente – numa atitude desprovida de quaisquer resquícios de ressentimento e, também, de boa vontade –, Maria Serrano, que, sem nunca integrar a equipa a tempo inteiro, colaborou nas relações públicas da revista.

 

 

Ainda no lote dos antigos cronistas da Mais Alentejo, faço questão de referir três nomes, distintos entre si por razões diversas: o enólogo Paulo Laureano, cuja arte no desenho de excelentes vinhos pertence a um patamar superior, o comentador televisivo Jorge Baptista, a quem me liga profunda amizade desde a minha fugaz passagem pelo jornalismo desportivo e, finalmente, Joaquim Letria, “mestre” jornalista e uma referência para várias gerações de profissionais da comunicação social.

Os dois colaboradores (ambos já falecidos) da Mais Alentejo que mais me marcaram, ensinando-me a “sentir” e a entender o Alentejo, foram inquestionavelmente António Almodôvar, o nosso querido Ni, bem como Horácio Flores, homens de cultura global e vasta, o primeiro, agricultor, mas que era sobretudo um genial cronista, o segundo, brilhante na escrita, predicado a que somava o facto de ter sido um dos mais respeitados médicos do seu tempo (que ainda foi o nosso, e o meu).

Recordo, com eterna feliz saudade, os encontros-jantares da equipa Mais Alentejo, principalmente aqueles (e foram muitos) realizados no restaurante “Vila Velha”, na vila de Vidigueira, onde Horário Flores animava o serão com estórias de humor refinado, como somente ele sabia contar, enquanto o Ni fumava um charuto cubano ao mesmo tempo que filosofava sobre a vida, assim como lembro a “Ceia dos Cardeais”, uma rubrica da revista que juntava à conversa cinco opiniões quase sempre divergentes, a minhas e as dos próprios Flores e Ni, na companhia de Vítor Silva e Lopes Guerreiro

 

EQUIPA PARA VENCER CAMPEONATOS

Inegavelmente, conforme já referi, num processo que considero sempre crescente, a Mais Alentejo tem vindo a aprofundar a respectiva qualidade, enquanto produto jornalístico, sendo claro para mim que a revista estava melhor há cinco do que há 10, tal e qual como está agora melhor, comparando-a com aquilo que apresentava há cinco, três ou dois anos, imodéstia de lado, acho que actualmente está melhor que nunca.

Fazendo uma análise sobre a Mais Alentejo da actualidade existem três factores a levar em linha de conta: primeiro, os conteúdos editoriais, aqui devendo ser considerados os textos jornalísticos, as reportagens, as crónicas, etc.; segundo, a qualidade da fotografia, nomeadamente, a nível da foto de capa; terceiro, a concepção gráfica da revista, a criação artística das suas páginas e a paginação genericamente falando.

A actual equipa Mais Alentejo reúne qualidades de excepção para levar a porto seguro todos os objectivos editoriais (conteúdos, fotografia e concepção gráfica), escrevendo aqui em destaque os nomes de todos(as) aqueles(as) que estão a meu lado na produção de cada edição da revista, começando pelos cronistas, vários com mais de 10 anos de colaboração, com um grande abraço: Ana Rosado, António-Pedro Vasconcelos, Carmo Miranda Machado, Eugénia Queiroz, Francisco Palma, Gonçalo Queiroz, João Pedro Varandas, José António Falcão, José Ribeiro e Castro, Luís Leal, Lino Patrício, Rogério de Brito e Sara Rodi, muito obrigado a todos(as).

Além de Mafalda Cordeiro, a mais recente jornalista a integrar a nossa equipa, o corpo redactorial da Mais Alentejo, além obviamente de mim próprio – é o que sou e serei sempre, jornalista –, conta com Gonçalo Guedes, de quem falarei adiante, com o criativo Vítor Mendes, designer e paginador da revista há já 15 anos consecutivos (a quem fica a dever-se a nossa excelência gráfica) e, ainda, com a mestria de dois fotógrafos de eleição, Jerónimo Heitor Coelho e Nicola Di Nunzio.

Vou contar um episódio que nunca revelei a ninguém, na Primavera de 2004, portanto, há mais de 17 anos, numa altura em que ainda não tinha conseguido “fixar” uma Redacção que assegurasse a qualidade que desejava para a revista – tarefa nada fácil atendendo, confesso, à exigência colocada por mim –, recebi um telefonema de José Lopes Guerreiro, então cronista da Mais Alentejo, indicando-me o nome de um amigo, com textos publicados em jornais, que pretendia ser jornalista.

Mais tarde, dediquei uma manhã a “entrevistar” candidatos(as) a integrar a Redacção da Mais Alentejo, o que fiz no meu próprio gabinete de trabalho, tendo a última reunião, já durante a costumeira hora de almoço, portanto, quando me encontrava sozinho na sede da revista, ocorrido com o candidato indicado por Lopes Guerreiro, a quem eu próprio abri a porta e, num gesto instintivo, inexplicável, optei por receber ali mesmo, no hall de entrada, não sei porquê, convencido que não tinha o perfil pretendido.

Dias depois, ao rever as notas escritas durante as entrevistas, estando no momento de tomar uma decisão, embora estivesse inclinado para outro nome, acabei por optar pelo candidato sugerido por Lopes Guerreiro – amigo que muito prezava (e prezo) –, um rapazola, que me parecia algo nervoso e tímido, alentejano, natural de Portalegre, mas então a viver em Évora, chamado Gonçalo Guedes.

Pois é, a vida tem destas coisas, certeira, inteligente e feliz foi a minha escolha, Gonçalo Guedes, conforme é sabido, é hoje, a seguir a mim próprio, o mais antigo membro da equipa Mais Alentejo – em cuja Redacção se fez, primeiro, jornalista estagiário e, depois, jornalista profissional –, trilhando comigo um caminho, comum e cúmplice, quase a completar 17 anos.

Gonçalo Guedes, desde 2004 até agora, no pulsar do dia-a-dia da Mais Alentejo, não tem sido somente um jornalista de enormes potencialidades e recursos, mas também (eu diria, sobretudo) um Amigo, isso mesmo, em caixa alta, o homem e o profissional a quem devo muito – muitíssimo – daquilo que a revista é hoje, não havendo palavras, por mais eloquentes que sejam, que possam exprimir a minha sincera gratidão, obrigado Gonçalo, muito obrigado!

Ainda no que respeita à equipa que actualmente me acompanha nesta aventura, termino com uma nota especialíssima, que só posso escrever a letras de ouro, dedicada a Fátima Lourenço, cuja colaboração, nos tempos mais recentes, tem sido preciosa para a afirmação e sustentabilidade da revista e a quem está reservado um papel protagonista no futuro imediato, nomeadamente, a nível do projecto – de que darei notícia brevemente – que, em 2021, vai revolucionar a marca Mais Alentejo.

 

A OUTRA MARGEM DO FUTURO

Optimista por natureza, vindo a propósito especificar que o meu optimismo não tem nada a ver com lirismo, mas sim com o realismo dos sonhos que transformam a vida, cujo pilar essencial se alicerça em nunca desistir de alcançar os objectivos traçados, num ininterrupto combate onde não cabem pessimismos nem desânimos, encaro 2020, ano em que completámos duas décadas de vida, como a passagem para a outra margem do futuro da Mais Alentejo.

O ano de 2020 foi muito difícil, sim, é verdade, todos sabemos porquê (maldita pandemia!), no caso da revista, com acentuadas e manifestas quebras no que diz respeito a receitas de publicidade, a qual consiste, nunca será demais sublinhar, na base principal da nossa sustentabilidade comercial e financeira, de resto, conforme acontece com um qualquer órgão de comunicação social.

Durante 2021, a meta a atingir passa não somente por realizar tudo aquilo que ficou por fazer no último ano e, acima de tudo, conseguir rasgar novos horizontes e diferentes caminhos, tanto a nível da revista como dos Prémios Alentejo, no sentido de dar nova alma ao projecto Mais Alentejo, genericamente falando, podendo desde já anunciar que a nossa sede principal vai passar a estar localizada em Évora, mantendo uma delegação em Beja.

Especificamente sobre o assunto referido, não querendo por enquanto levantar mais do que uma ténue ponta do véu – oportunamente, haverá novidades –, apenas direi tratar-se de algo que vai afirmar ainda mais a marca e o projecto Mais Alentejo, além do fortíssimo contributo que irá dar ao sector das artes, da cultura, da literatura, do turismo e da sociedade em geral, considerando o universo de todo o Alentejo.

Não se trata, saliento, de trocar Beja por Évora, quem me conhece sabe bem o quanto amo a cidade bejense – e todo o Baixo Alentejo –, que estará sempre no meu coração, onde reside grande parte do percurso da Mais Alentejo, começando pelo primeiro andar do número quatro do Terreiro dos Valentes, passando pelas ruas envolventes e terminando no Luiz da Rocha, o café secular onde a tradição ainda é o que sempre foi, sem esquecer a Ovibeja, palco de todo o Alentejo deste mundo.

Toda a gente sabe, a Mais Alentejo é o projecto profissional da minha vida, ao qual dou tudo o que sou e sei, em prol do qual sou capaz de ir até ao infinito, assim como é conhecido que, enquanto jornalista, nunca trocaria a revista que criei e fundei por nenhum outro órgão de comunicação social, por mais aliciante que fosse, o Alentejo, onde vivo vai para 27 anos, é a minha casa.

Claro, não o vou negar, recordo tudo o que andei para aqui chegar – e, acreditem, lutei muito para ter um lugar no panorama do jornalismo português –, lembrando a Emissora Oficial de Angola, onde debutei, o extinto Jornal do Comércio, o jornal A Bola, o semanário Gazeta dos Desportos e, principalmente, a agência Notícias de Portugal, que antecedeu a Lusa, em cuja Redacção, ao lado de uma mão-cheia de excelentes profissionais, aprendi quase tudo aquilo que o jornalismo ensina.

Mas, também no jornalismo, a aprendizagem e os ensinamentos são um mundo dinâmico e incessante, vindo a propósito enfatizar que, no meu caso, todo o percurso trilhado na Mais Alentejo tem constituído uma autêntica “universidade”, muito tenho aprendido e muito tenho crescido ao leme desta revista, estando ciente que nunca vou deixar de aprender e de procurar melhorar.

Se em 2007, numa altura em que a revista tinha sete anos de existência, ganhámos o Prémio Gazeta, instituído pelo Clube dos Jornalistas, o mais importante galardão no seio da família jornalística portuguesa, que me seja perdoada a imodéstia, 20 anos depois da primeira edição, acho ter chegado o momento do percurso da Mais Alentejo ser novamente reconhecido a nível nacional, já que, no universo do país, considerando todo o interior, esta publicação é uma aragem de ar fresco no panorama da imprensa.

Durante as duas décadas de revista, além da satisfação pelo trajecto profissional conseguido, enchendo-me de uma felicidade que não tem fim, existe também um lado pessoal relacionado com os amigos que fiz, dos verdadeiros, tendo já citado, no decorrer desta crónica, vários deles, não podendo, em nome dos sentimentos que me invadem, deixar de referir João Manuel Nabeiro, não somente por apoiar e entender a natureza e o papel da Mais Alentejo, mas, sobretudo, pela amizade sincera, que não preço nem é negociável, forte abraço alentejano, João!

Palavras finais para os meus pais, José Francisco e Isabel Maria, que infelizmente, por terem partido cedo, demasiado cedo, não puderam acompanhar o alentejano em que inequivocamente me tornei –, como ambos ficariam felizes (e orgulhosos até) vendo o filho, o filho “que só sabia escrever”, fazer Mais Alentejo –, para eles, que, bem vistas as coisas, estarão sempre presentes, fica a minha eterna gratidão, o meu amor, escrito nas estrelas que sorriem a partir da beleza iluminada dos céus alentejanos.